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Sexta-feira, 2 de Março de 2012

CHAFARIZ DE PALMELA



ONTEM COMO HOJE...



"Tanto como a guerra, mais talvez que a guerra, foram as máquinas que transformaram a nossa vida...", "Nota curiosa: a paciência desapareceu: quase toda a gente que conheço vive  numa perpétua irritação. "Pulularam as fábricas que influíram nos costumes, na dissolução e na propaganda do ódio contra a classe exploradora. A carestia de vida chegou a equilibrar-se com o aumento dos salários, mas os sentimentos já não se equilibraram", "o risonho "Zé Povinho", de Bordalo, transformou-se profundamente", "Deu--se um passo não sei para onde. Para bem? para mal? O futuro o dirá. Com a camada nova educada no sport e na admiração pelos ases, lá se vão os parlamentos, os discursos, os homens pomposos e decorativos. O humanismo deu à costa - e com ele certa graça, certa sensibilidade, que nos fazia melhor a vida. Resta a força e o dinheiro. "A questão sexual já tem pouca importância, diz Camacho, e daqui a pouco não tem importância nenhuma. Então será um regabofe... Vale a pena - e porquê? para quê? - sofrer neste mundo horrível, onde se perdeu a escala de valores, o sentimento da própria dignidade, ou é preferível pertencer ao putanato oficial que anda por essas ruas e pelos teatros, com peles e jóias - e mais feliz, sobretudo mais feliz do que as que se sacrificam a um lar ou a teias de aranha?", "As culpadas são as classes chamadas superiores. Lisboa foi sempre uma terra depravada, mas nunca como agora. Actualmente, é uma cloaca. Noutro dia, no Entrudo, houve um grande baile de pederastas numa escola da Graça. Publicam-se livros de versos dedicados a homens por homens (Canções, de A. Botto), e entre os manifestos e folhetos espalhados figura a Sodoma divinisada (de Raul Leal), etc. Também há mulheres oferecendo poesias como A minha amante (Judith Teixeira, Decadência). Lisboa é anticristã - esta Lisboa  nova-rica, de que se contam todos os dias escândalos.", "O mundo não precisa dele (Columbano). Ele não é rico, nem dirige um jornal. (...) Talvez o mundo seja  justo quando odeia a beleza e o sonho, que entrevê mas não pode atingir.","Talvez o mundo seja justo em odiar todas as excepções - que tornam certos homens diferentes mas felizes. Pobre não importa. Pobre e desdenhado. O que importa é 
ser grande e feliz.", etc,.



RAUL BRANDÃO
MEMÓRIAS (TOMO III)
















Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

MEMÓRIAS



           SETEMBRO-1910


        Hoje acordei com este grito: eu não soube fazer uso da vida! a mesma voz me repete:
O que me pesa é a inutilidade da vida. Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre mesma voz me repete: - É inútil!

        A aquiescência, o sorriso: pois sim... - a necessidade de transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este ser inútil, que não sabe viver e que já agora não pode viver. Não grito de desespero porque nem de desespero sou capaz.  
      A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa época é horrível porque já não cremos - e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera...

        Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. Contudo há horas, as horas perdidas - e só essas - que queria tornar a viver e a perder.
      Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As coisas belas reduzem-se a meia dúzia: o tecto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz.


     




RAÚL BRANDÃO
MEMÓRIAS (TOMO I)






MEMÓRIAS-ESTRADA ROMANA DO CASTELO






        
        Memórias da estrada romana que circunda parcialmente o castelo de Palmela.









MEMÓRIAS


                                 O ACONTECIMENTO MAIS ANTIGO DE QUE TENHO MEMÓRIA

          Não digo que recordo o dia em que nasci porque seria faltar à verdade, assim como  não tenho memória do acontecimento mais antigo da minha vida. Existe um conjunto lato de vivências da primeira infância, que se interpenetram, estabelecendo um sincício cronologicamente impossível de reconstituir, mantido apenas pelo afecto parenteral.
          Vejo o perfume das florinhas brancas que cercavam o parque do castelo, contíguo à casa onde nasci. Olho esse odor omnipresente então e agora, apenas pela evocação da imagem. Os passeios com os meus pais no parque, as brincadeiras no escorrega e no balouço, o espaço dos passarinhos e dos macacos, as  longas e deliciosas caminhadas pela estrada romana ou pela minha serra estabeleceram laços de união imperecíveis.                                                                            
           A senhora Elisa tratava da casa e de mim. Acompanhava-a à praça, ao talho, à carvoaria, ao sapateiro. Por vezes levava-me ao cartório para ver a mãe. Todos nos conheciam não só pela posição que minha mãe ocupava mas sobretudo pela atitude muito humana que a caracteriza e que convertia cada pessoa ou cliente do cartório, num amigo para toda a vida. Nos dias em a senhora Elisa arranjava bifes, eu colava-me à mesa onde mal chegava em bicos de pés, só para comer bocadinhos de bife cru. Durante a semana, os sentimentos dominantes eram os de perda e de ansiedade projectada no futuro. Os meus pais trabalhavam de manhã à noite. Como filha única, esperava ansiosamente a chegada de ambos.
            Durante as vindimas observava a chegada das carroças, com tinas pejadas de uvas, a sua transferência para os lagares, onde os homens, com botins de borracha, as pisavam. Assistia a toda a “bulha” dos trabalhadores com as uvas. Vinham e iam carroças. “Quando chega o pai? E a mãe, será que vem para ficar ou terá que voltar ao cartório seja a que horas for?” Lá paras os campos, se chegasse a hora de alguém, lá ia a minha mãe legalizar as disposições finais do moribundo.
            No andar de baixo vivia uma família paupérrima cuja mãe, a Maria Lagita, com hábitos etílicos muito acentuados, pariu um rapazinho na altura em que eu nasci. A minha mãe ajudava-os assegurando o bem estar do bebé a quem dava banho, leite e roupa. A Faustina  ocupava também umas divisões no piso de baixo, tinha dois filhos, dos quais o mais novo era o meu amigo. As idades andavam uma pela outra e o Zdórinho (diminutivo de Ezidoro) frequentava a nossa casa porque eu, além de gostar dele, por vezes só a ele obedecia! Aos domingos à tarde assistíamos ao programa infantil na televisão, cujo ponto alto era o Bonança, com uma banda musical que permanece associada ao Zdórinho. Terminado o  filme, começava a ansiedade projectada na saída do meu amigo, que se sobrepunha à minha solidão. A canja com miúdos, primorosamente conseguida por minha mãe, esperava-nos à mesa onde jantávamos com os meus pais. Findo o jantar era a hora de o Zdórinho descer para sua casa e a de eu ficar sozinha. Durante alguns dias de semana, depois do jantar, era-me concedido o privilégio de ir para a sala com os meus pais,  ouvir o João Villaret ou o arquitecto Sousa Veloso.
          Tanto os meus avós maternos como os paternos viviam em Setúbal. As suas casas  constituiam a nossa base durante os dias de férias dos meus pais, quando os havia. Daí  caminhávamos  até ao barco que nos transportava a Tróia. Os meus pais a pé, eu às cavalitas do meu pai, impunha a um dos dois o encargo do carro onde eu devia viajar! Além deste ia ainda o meu suporte lúdico, as múltiplas mudas de roupa e alguma comida que servia de lanche até voltarmos a casa de meus avós que nos esperavam para o almoço. Uma vez no barco, iniciava-se a ronda pela casa das máquinas, onde o meu pai me levava e cujos elementos brilhavam como ouro. Depois, ajoelhada no banco, o Sado saudava-me com a presença de golfinhos que nos acompanhavam exibindo as suas proezas. As alforrecas boiavam tranquilamente naquela água cujo azul ímpar me encanta. As gaivotas seguiam o barco. O Sol, omnipresente, contribuía para tornar paradisíaco todo aquele ecossistema em que tive a felicidade de participar. Sentia-me parte dele.  Dei os primeiros passos na areia da Tróia. O meu mestre de natação, o meu pai, fez com que eu tivesse começado a nadar com autonomia aos três anos. Com ele aprendi a apanhar navalhas, berbigões, amêijoas e conquilhas, a abrir estes infelizes bivalves e a comê-los crus.
           Vivi a minha pequena infância, na Natureza a que pertenço e no amor dos meus pais.
           Comecei a desenhar muito cedo, sem grande variação temática. O barco da Tróia e o homem da cara preta coexistiam. Este nasceu de qualquer fantasia a que ainda não tive acesso.
           Em casa dos meus avós paternos, o meu pai ou a minha mãe adormeciam-me. O meu pai colocava uma das mãos sob a minha face. Segredavam-me muito baixinho numa melodia que apenas eles conseguiam compor: “olha o mocho, dorme Lilózinha, vem aí o mocho”. Eu adormecia mas sem medo do mocho. O seu piar determina ainda hoje, onde quer que seja, uma descompressão, uma sensação de ternura e de afecto tão reconfortantes como no primeiro dia em que as senti. Talvez seja por isso que actualmente, a minha casa e a dos meus pais, esteja povoada por mochinhos de toda a forma, feitio e material. Há-os de penas, de pedra, de ferro e de várias cores. Mas é o piar dos verdadeiros que me inspira e tranquiliza.
          De casa dos meus avós maternos eternizou-se-me a imagem do piano. Adormecia não sem observar a única lâmpada, pendente do tecto. Nos meus olhos pouco maduros registavam-se imagens de muitos raios centrífugos relativamente à lâmpada. Não era confortável, naturalmente, mas eu adormecia no conforto de um quarto com uma enorme janela enquadrada por madeira, igual à que existe actualmente no meu quarto, com a mesma posição relativa.



 GLÓRIA SANTOS DIAS



Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

PARTIU O PROFESSOR DAVID-FERREIRA. FICA A SUA MEMÓRIA.

Noites sem nome, do tempo desligadas, 
Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.


As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.




Sophia de Mello Breyner Andresen
OBRA POÉTICA

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